A comunicação da (in)certeza
Patrícia Martins e Souza -Setembro de 2026

A linguagem da incerteza no laudo de imagem: o que "compatível", "sugestivo" e "podendo representar" realmente significam?
Quem lê um laudo de imagem geralmente espera uma resposta direta: é ou não é e o que é.
Mas o radiologista quase nunca escreve "é isso". Escreve "pode ser" – tanto por insegurança, ideia equivocada de proteção jurídica ou porque realmente não tem como termos certeza do diagnóstico apenas com a imagem.
E essa zona de incerteza é comunicada por meio de expressões que parecem sinônimas, mas que carregam pesos diferentes de convicção. O problema é que esses pesos não são universais. Não existe um consenso absoluto sobre o que cada termo significa, e é exatamente essa falta de padronização que gera discordância entre quem lauda e quem lê o laudo.
Há, no entanto, propostas de escalas padronizadas de certeza diagnóstica que tentam mapear essas expressões a faixas de probabilidade. Uma das mais citadas e adotadas é o léxico do Memorial Sloan Kettering Cancer Center, que organiza os termos em um gradiente numérico: consistente com acima de 90% de confiança, suspeito para ou provável em torno de 75%, possível em torno de 50%, menos provável em torno de 25% e improvável abaixo de 10%. É uma referência útil, mas é importante lembrar que ela representa uma proposta institucional, sendo uma padronização ainda frágil e com concordância pobre para a maioria dos termos de incerteza, com trabalhos indicando que os profissionais não usam as mesmas frases de forma consistente para o mesmo grau de confiança.
O que encontrei de mais objetivo em relação aos termos mais usados:
‘Compatível’ seria equivalente a ‘consistente com’. Estão entre os termos mais fortes da escala, indicando probabilidade maior que 90%. No estudo de Shinagare, "consistent with" foi o termo preferido por 45% dos radiologistas para representar 100% de confiança. Mas existe alguma interpretação divergente entre diferentes especialidades - Grant e colaboradores destacaram que "compatível com" é interpretado com grau de probabilidade significativamente maior por radiologistas do que por médicos emergencistas. Por isso, se há 100% certeza, o indicado é colocar diretamente a alteração (por exemplo, colocar diretamente fratura, rotura, lesão suspeita, etc.), em vez de usar “compatível com”, pois isso pode passar uma ideia de incerteza que não existe no caso.
"Indicativo” e "sugestivo de”, embora não sejam sinônimos (sugestivo de X — "os achados sugerem X" e indicativo de X — "os achados indicam X"), "indicativo" soa levemente mais firme que "sugestivo" no plano linguístico (indicar parece mais forte que sugerir), ambos ocupam um patamar de certeza moderada, tipicamente em torno de 70 a 75%, assim como “suspicious of". Curiosamente, a adição do advérbio “altamente” muda bastante a percepção: "highly suggestive of" foi o termo preferido por 46,5% dos radiologistas para representar probabilidade muito alta, logo abaixo de 100%.
É preciso uma ressalva importante: a maior parte desses estudos foi conduzida com o léxico em inglês, em serviços dos Estados Unidos. Não foi identificada na literatura recuperada uma validação específica para os termos exatos em português usados na prática radiológica brasileira. O estudo de Foppa, conduzido no Brasil, reforça o padrão de dispersão nos termos intermediários e mostra o mesmo fenômeno de sobreposição entre "sugestivo" e "compatível com" em amostra de pacientes e médicos brasileiros.
Além disso, no nosso meio, “suspeito” carrega a conotação de eufemismo para malignidade, e na prática acaba não sendo usado como equivalente a “indicativo” ou “sugestivo”, existindo no geral a seguinte hierarquia, mesmo que subjetiva: compatível = consistente ³ altamente sugestivo > indicativo > sugestivo.
"Podendo representar" é, talvez, o termo com maior consenso para a faixa intermediária. Foi escolhido por 50,7% dos radiologistas para representar probabilidade intermediária no estudo de Shinagare e é o termo formalmente recomendado pela escala de Glazer para a faixa entre 25% e 75%. Já "considerar a possibilidade" se aproxima mais do registro de "possibly", que aparece entre os termos explicitamente desencorajados por gerar discordância substancial entre leitores. Ou seja, embora ambos comuniquem incerteza, "podendo representar" tem calibração mais consistente, enquanto "considerar a possibilidade" tende a sinalizar uma probabilidade mais baixa e é usado de forma menos padronizada. Não são, portanto, sinônimos de confiança equivalente. Essa última expressão é particularmente útil quando estamos diante de algumas hipóteses, cabendo nesse caso colocarmos “Considerar entre as hipóteses diagnósticas as possibilidades de”, indicando a ideia de que o achado pode ter várias causas.
E é aqui que entra a dimensão médico-legal, que costuma despertar tanta preocupação, com alguns temendo o uso de “compatível” por expressar muita certeza (>90%), enquanto outros temem que “sugestivo” seja um termo evasivo, como se o radiologista estivesse plantando um diagnóstico sem assumi-lo. Já outros defendem "sugestivo" justamente por sinalizar incerteza, sendo visto como mais defensável: o radiologista deixou explícito que não havia certeza, transferindo ao assistente a responsabilidade de somar com outros dados.
O que realmente importa juridicamente
A literatura de radiologia médico-legal, com destaque para Berlin, um dos autores mais citados sobre responsabilidade civil na área, enfatiza que a ambiguidade lexical em laudos é um fator de risco reconhecido em litígios por atraso no diagnóstico.
A defesa do radiologista frequentemente depende de provar que o grau de suspeita comunicado era proporcional ao achado e que a recomendação de seguimento foi clara. Um laudo com excesso de termos de proteção, sem recomendação explícita de conduta, é mais vulnerável a ser interpretado com o chamado viés de retrospecto, como uma comunicação inadequada do risco.
A ideia de que "sugestivo" ou algum outro termo específico seria mais traiçoeiro que os demais parece refletir mais uma percepção clínica e cultural do que um achado demonstrado na literatura e de desfechos jurídicos reais.
Ou seja, mais do que a palavra escolhida, o que pesa é a proporção entre o termo e o que a imagem sustenta, e a consistência:
Se o médico solicitante interpreta a descrição como uma mera possibilidade remota e ignora um achado grave, a falha de comunicação pode ser escrutinada em um processo especialmente em casos de atraso no diagnóstico de casos graves.
O que isso significa na prática para quem lauda?
Primeiro, que a consistência interna importa mais do que a escolha de um termo "mágico". Se o radiologista usa os termos com a mesma força, o leitor perde a referência de onde ele está na escala. É a proporção entre a palavra e o que a imagem sustenta que protege o laudo: afirmar "compatível" para um achado que a imagem não sustenta é superestimar e induzir conduta desnecessária; usar "sugestivo" ou “pode ser considerado” para um achado que na prática é quase confirmatório é subestimar e falhar na comunicação da gravidade. Além disso, a recomendação de conduta é tão importante quanto o termo escolhido — um laudo que sinaliza incerteza mas não orienta o próximo passo deixa o médico assistente sem direção e o radiologista mais exposto.
No fim, o laudo é um pilar técnico, não uma sentença. Ele comunica uma probabilidade, e quem atravessa a ponte entre imagem e diagnóstico é o médico assistente, somando a probabilidade do exame à clínica do paciente. A linguagem da incerteza existe justamente para preservar essa ponte com honestidade. Entender o peso de cada termo — e a variabilidade que eles carregam — é o primeiro passo para laudar com clareza, com proporção e com segurança.
"A medicina é uma ciência de incerteza e uma arte de probabilidade."
William Osler
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